quarta-feira, 17 de abril de 2013

feminismoS

olga castro e maría reimóndez: feminismos. xerais 2013.

sempre pensei que nom sabia avundo sobre o tema do feminismo. as minhas leituras são esporádicas e anedóticas, sem programa de leitura. lim histórias de mulheres (os cinco volumes!), lim o segundo sexo, lim o quarto que seja seu, lim as literatas, lim... porém isso deixava em mim dúvidas e lacunas sobre por onde seguir para saber mais e encontrar-me a gosto sendo feminista. porque esses nom deixam de ser clássicos que em muitas cousas não quadram com as minhas experiências vitais.
e eis que olga e maria parem este volume de achegamento aos feminismos, que pretende oferecer-nos uma panorâmica de todo quando engloba essa palavra e uma enorme proposta de leituras para quem queira continuar o seu caminho de construção feminista.

e sim, o livro não me decepcionou em absoluto. escrito desde a galiza mas com a olhada atenta a quanto acontece no resto do mundo, feminismos faz um percorrido pola suas histórias e geografias, as diversas correntes e propostas, as críticas e revisões, as disciplinas e transversalidades... 

correm as páginas e achegas-te a pessoas desconhecidas que levam anos dizendo cousas das que ti tinhas uma intuição, passas as linhas e encontras as mesmas dúvidas que ti acovilhavas expressadas maravilhosamente por outra mulher da outra ponta do mundo, saltitas de parágrafo em parágrafo e tropeças com essa tua certeza que acreditavas única no universo mas é partilhada por tantas outras. e quando menos o esperas, após uma leitura singela e entretida, dás com a listagem de recomendações para continuar a aprender e com a seguridade de nunca mais desertares da identidade feminista.

aquilo que mais me agradou no livro foi a vontade clara de visibilizar a pluralidade de vozes e discursos. suponho que o facto de estar escrito a quatro mãos pode ser uma reivindicação disto. porque a conclusão que eu tiro de ler tanta tendência e revisão é que é nessa pluralidade que reside a força do movimento. porque se o patriarcado está em perpétua evolução para manter o seu poder, o mesmo fam os feminismos para lhe fazer fronte.

outra cousa da que gostei: do optimismo. que sim! que o feminismo não trunfou ainda, porém consegue mudar as cousas todos os dias!!

se não sodes feministas, recomendo-vos esta leitura. e passaredes, seguro, a este lado da força.




quarta-feira, 3 de abril de 2013

rabos de lagartixa

juan marsé: rabos de lagartija. barcelona 2000.

recém acabadinho e deixando um regosto de boa literatura. como bem diz uma das citações iniciais: nom contes a verdade, conta máis.
e para falar dos horrores da guerra incivil, nada melhor que não falar deles, mas da posguerra. e para falar das misérias diárias das perdedoras, nada melhor que não falar delas, mas das fantasias das suas crianças.

uma mestra republicana represaliada a trabalhar de costureira, um polícia da brigada político-social apaixonado por uma mestra represaliada. um homem fugido e provavelmente morto deixando atrás mulher represaliada e grávida. um filho de mestra represaliada e sindicalista fugido que mantém um cadelinho quase morto de tão cadáver, odeia os guripas, gosta de vestir de menina e fala com as pantasmas na noite entanto segue a zoar-lhe nos ouvidos o barulho dos últimos bombardeios em barcelona. 

e tudo contado pola voz onipresente duma criança ainda não nascida, a crescer no ventre duma mestra represaliada agotada de tanto trabalhar de costureira e suportar as visitas de um guripa da social entanto o seu filho sim nascido anda nas traseiras dos cinemas aprendendo sexo com Paulino e fala na noite com um aviador das RAF.

poucas personagens (mai, filho, cão, amigo e polícia) mas tão bem construídas, tão elaboradas, que nelas vemos representada a atmosfera dum época dura, duríssima: essa posguerra faminta e silenciada na que as pessoas arrastavam as suas vidas como chispa arrastava o seu corpo acabado e dolorido. aguardando a morte como a última esperança de libertação. 

do que mais gostei na obra foi do seu realismo fantasiado. a veracidade da trama e das cenas diárias é acompanhada polas cenas nascidas da imaginação desbocada de david, que fala com as gentes do mundo real igual que com as gentes do seu mundo fantasma, que necessita inventar palabrijas para proteger da dor o seu amigo Paulino, que precisa contar mentiras para que a verdade seja sabida. gosto de que conte umas histórias autênticas de cuja autenticidade nos protege esse narrador assim tão inverosímil, um feto ainda não nado.

nada como a fabulação mais fabulada para fazer-nos ver a realidade. isso defende david, o protagonista, e isso demostra marsé, o autor.




segunda-feira, 12 de novembro de 2012

entanto neva sobre os cedros


david guterson: mientras nieva sobre los cedros. traduçom de jordi fibla. barcelona, círculo de lectores 2000.

entanto neva sobre os cedros o tribunal tem que decidir a vida duma pessoa.
estamos em 1950. nas águas da ilha de são pedro, perto de seattle, aparece um marinheiro morto atrapado no aparelho do seu barco.
o xerife do condado desconfia da morte nom ser um acidente e, já nas primeiras pesquisas, é detido um vizinho como suspeito de assassinato. a intriga, por suposto, é sabermos se este ou nom é culpável.

o fio que guia o romance são os depoimentos de cada uma das testemunhas no juíço por assassinato contra kazuo miyamoto, o marinheiro imputado pola morte de carl heine. cada testemunha é uma história particular, que nos faz conhecer a sociedade da ilha, os seus costumes e tradiçons e o seu carácter isolado e fechado. 

um facto essencial é haver no lugar uma povoaçom estável de famílias de origem japonês. e estamos em 1950. numa ilha do pacífico. e as feridas da ii guerra mundial estám mui perto. 

é kazuo culpável ou é a vítima duma vingança racista? está a pagar as culpas do bombardeamento de pearl harbour? escuda-se no racismo para ocultar a sua participaçom no assassinato? 

uma das cousas das que mais gostei do romance é a clara relaçom entre o estado anímico dos protagonistas e o lugar que habitam. a natureza, a paisagem, o entorno estám presentes em todos os capítulos do livro, virando uma personagem mais da história. a pesca do salmom, os cedros, as praias e as ameijas, as plantaçons de morangos ou, como transparenta o título, a primeira grande tempestade de neve do inverno, reclamam o nossa atençom durante a leitura.

à parte de eu cair na conta de que para mim o exotismo é viajar ao norte, quanto mais perto do círculo polar ártico melhor, confirmei o temor de sempre: quanta boa literatura ficamos sem ler por desconhecimento da sua existência...

do romance figêrom versom cinematográfrica, que nom sei se é boa adaptaçom porque nom a visionei.




domingo, 28 de outubro de 2012

marcas de nacemento

nancy houston: marcas de nacemento. traduçom de david gippini. rinoceronte editora. cangas 2012.

o privado é político. isso deixa claro, por se alguém ignorava ou duvidava, este romance.

uma marca de nascimento, uma manchinha escura e pilosa na pele. eis a herança transmitida na família. e essa nódoa é vivida como um talismám ou como uma maldiçom -a de possui-la ou nom-. 

conhecemos a história da família através de quatro geraçons e quatro vozes que nos vam levando da mao até o pecado, desculpa, segredo original. nisto, o romance concorda com tantos outros de história familiar que oculta qualquer cousa no faio ou nas gavetas de velhas lacenas.

porém, duas cousas fam este romance diferente. 

as vozes que falam som as das protagonistas quando crianças. ao invês do habitual, onde encontramos velhotas sentadas na butaca com manta a proteger da reuma, e desvendado à neta o mistério daquele encontro no ano 1937, aqui chocamos com as vozes de dous meninhos e duas meninhas de 6 anos que narram os acontecimentos (essas marcas familiares) desde a sua olhada infantil.

e escrevo chocamos de maneira intencional. é um choque escuitar / ler as vozes dumas crianças em absoluto inocentes, em absoluto nhonhas, em absoluto cândidas. o primeiro capítulo pareceu-me brutal. e o terceiro impressionante. precisamente aqueles em que fala o fanatismo ad ovo

a narrativa funciona como uma memória ao invês. ou melhor. como a memória danada duma doente de alzhéimer que só acerta a reviver para nós farrapos esgaçados da sua neinice.

e erra, essa protagonista... só por conhecerde-la paga a pena a leitura.

marcas de nacemento fala-nos de como o público afecta ao privado. de como factos acontecidos há decadas a uma pessoa podem escarificar a pele doutras pessoas passadas várias geraçons. marcas de nacemento fai reflexionar sobre a memória, sobre o que contamos e como é recebido polas demais. marcas de nacemento fala-nos do fanatismo, que pode ter milheiros de faces e carautas, sendo sempre o mesmo, o Inimigo.
o romance está tam bem cosido, tam bem engarçado que a única vontade que me restou quando acabei de ler foi recomeçar a leitura e admirar as costuras, como as vizinhas que olham o revês duma toalha bordada para comprovarem a mestria da bordadora.

maravilha!


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

leituras demoradas: a leitora

bernhard schlink: el lector. anagrama. barcelona 2000. 

lemos o livro no clube de lectura de adultos. e visionamos alguns trechos da versom cinematográfica. eu vira o filme quando a estreia, polo que a leitura foi feita com a trama sabida e os mistérios desvendados.

e igualmente adorei. e nom houvo essa reacçom decepcionante com uma e outro, outro e uma. lembrava ter gostado da película e gostei do romance. 

o leitor é um romance no que somos obrigadas a reflexionar sobre a culpa e o perdom. 

está estruturado em três partes, todas narradas polo protagonista, michael, nas que dá conta do seu encontro adolescente com hanna, uma mulher que o inicia sexualmente, o seu reencontro con ela, anos mais tarde, quando, estudante de direito, a reconhece entre as acusadas nun juíço por colaboraçom no holocausto, e finalmente, o seu úlitmo encontro, décadas mais tarde, quando ela sai de prisom ao cumprir condeia. 

em apariência, a trama está centrado no tema do holocausto, os judeus, o nazismo. e nisso centra a sua trama o filme (ou esse é o meu recordo): na culpabilidade que sente o protagonista por nom ter reconhecido uma nazista na mulher que amou (metáfora das novas geraçons que se auto-culpabilizam dos crimes nazis). mas agora, quando lim o livro, percebim que o autor em realidade nos convida a algo mais que ler uma outra visom do holocausto. propom-nos um dilema moral: pode um criminal ser redimido? há delictos imperdoáveis? que impede às vítimas perdoarem(-se)? pode ser reconstruída uma sociedade, apos um conflito violento, sem (re)conciliaçom?

a leitura do livro quadrou-me com um momento em que eram  novidade os encontros nos cárceres entre vítimas e presas da eta. eu nom pudem mais que relacionar uma cousa com a outra. e admirar a capacidade de uns e outros para falarem dos danos infringidos e recebidos.

porém o que a mim mais me deu que pensar foi o acontecido na juntança do clube de leitura. as leitoras sentimos empatias diferentes com respeito às personagens do romance: a mim e outras resultou-nos mais antipático o protagonista, no meu caso porque tem a oportunidade de salvar(-se) um pessoa e nom a aproveita, ao tempo que é incapaz de perdoar, nom consegue sentir piedade, o que faz que eu tam-pouco a sinta por ele. em troca, comoveu-me o personagem feminino pola dura aprendizagem que foi quem de fazer. outro grupo de participantes na sessom dirigiam essa antipatia cara a mulher protagonista, nom polos seus delictos nazistas, mas por um delito prévio: o de abuso de menores. consideravam que o dano feito a michael por parte de hanna era demasiado imenso; e que nom pagara o suficiente por ele. 

aquilo que a mim me deu que pensar foi o facto de que o segundo grupo de opinadoras estava integrado por nais e que no primeiro nom havia nenguma. era casualidade? é esse o facto que marca a diferência de opinions e empatias? tanto marca (nom) ser nai? o caso é que perguntei por essas simpatias -por quem sentes mais lástima, por michael ou por hanna?- a outras lectoras do livro e continuam a quadrar as contas. e eu continuo a dar-lhe voltas às marcas da maternidade.

penso que esse nom era, precisamente, o tema do livro. quem o diria!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

um saco de bolas

joseph joffo: un saco de canicas. mondadori, barcelona 2010.

quando há tempo lim o neno do pijama raiado escrevim que nom acreditara na personagem protagonista, porque mais que menino ingênuo, parecia aparvado. daquela nom lera esta saqueta de pelouros. livrou-se o do pijama. a crítica havia ser ferozmente destrutora. 

porque este livrinho é uma maravilha. o protagonista também é um menino. é parisino e judeu e junto com o seu irmão maurice, dous anos mais velho, começa uma viagem pola frança ocupada do 1941 fugindo pola janela quando os nazis e a gestapo entravam pola porta.

já me caiu em graça porque começa o primeiro capítulo explicando a importância de ser campiom jogando ás bolas. e oferece nas primeiras linhas, a definiçom do que é um irmão: alguém a quem devolvemos a última bola que lhe ganhamos. joseph é um menino crível porque as suas reflexons correspondem-se com as reflexons de uma criança de dez anos, mas nom por isso deixam de ser reflexons sérias e interessantes. é ingénuo, mas nom parvo. e pode que nunca soubera realmente que andava em risco de morte, mas tinha claro que vivia em perigo.
por exemplo, jo leva uma decepçom enorme quando cruza a linha que separa a zona ocupada da zona liberada francesa: ele contava que ia ser semelhante aos defrontamentos cinematográficos entre índios e vaqueiros e resultou ser um passeio noturno. nom duvida em identificar uma colaboracionista porque uma pessoa tam odiosa como para compará-lo com o irmão (ai, és cuspidinho a maurice!) tem que ser traidora  por força.  e sempre confia em que voltará a juntar-se toda a família ainda que em cada escapadela deixe atrás pessoas que nunca mais vai ver...

do que mais gostei das andanças de jo e maurice é que sempre se salvam com uma combinaçom proporcionada de sorte e fabulaçom. ambos os dous som uns autênticos mentiráns. contam com uma capacidade extraordinária para aproveitarem qualquer pormenor da sua vida quotidiana e argalhar vidas e histórias que ocultem a sua identidade judeia. tam bem contam os contos e goçam de tal maneira as suas mentiras que porvezes semelham esquecer que elas som as suas armas de salvaçom.

jo vém sendo o joseph joffo menino e o livro nom som outra cousa que as suas memórias. joseph consegue manter na narrativa o ponto de vista duma criança de dez anos, que entende que deve fugir mas nom acaba de compreender por que, que se sabe judeia sem ter mui claro que é ser judeu, que sabe quem som os inimigos, mas é quem de fazer amizade com soldados italianos...  e todo isso é o que faz o livro delicioso.

cousa bonita.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Morgana em Esmelhe

begoña caamaño: morgana em esmelle. galaxia, vigo 2012.

para ler morgana há de ser lido antes o merlim do cunqueiro. nom por questons de subordinaçom patriarcal, eva e a costela de adám e essas cousas, mas porque este romance está escrito em contraponto com aquele de merlim.

o ponto de partida é simples: morgana aparece em esmelhe , nas terras de miranda, na outra fisterra, para arranjar contar com o velho meigo que aí se refugia e aclarar, de passo, quatro cousinhas à esmirriada de genebra. 

o romance narra o tempo da visita, e fai-nos viver a tensom que há nos quartos da casa grande e que manoelinha, filipe de amância e marcelina mal podem conciliar. só ao final a tensom é resolvida, nom vos conto se com arranjo ou com rebentaçom.

na história combinam-se as vozes de merlim, filipe e as mulheres de avalon, mas a perspectiva, o ponto de vista que se apom ao longo do discurso é o de avalon: a defesa do conhecemento científico ao serviço da comunidade fronte ao escurantismo e elitismo da nova religiom que invade europa. se a lenda do rei artur foi tingida de cristianismo, em morgana reivindica-se um laicismo nom sei se anacrónico, porém bem interessante. 

morgana só podia viajar a esmelhe porque só um merlim como o do cunqueiro, velhote, humilde, animoso e bom vizinho pode receber morgana na sua casa como filha pródiga. o merlim de excalibur teria-lhe metido um lostreghaço tipo son-goku que nos fastidiaria as reflexons que oferece este texto. 

achei de menos esse humor tenro que ressuma o livro de cunqueiro, e que creio lhe acaia mui bem a esta morgana recriada por begonha. ela coloca essa rejouba nos capítulos narrados por filipe de amância, nos que imita e é reconhecível o estilo do mindoniense.

leitura mui agradável.

 


sábado, 6 de outubro de 2012

leituras demoradas: pérez galdós reload

almudena grandes: inés y la alegría. tusquets, barcelona 2010
                            el lector de julio verne. tusquets, barcelona 2012.

ambos os romances fam parte duma série de título episódios duma guerra interminável.
sim, e continua a guerra civil a encher-me os tempos leitores. ambos os romances som as primeiras entregas dum programa de seis romances que a autora se marcou, seguindo o caminho marcado por galdós na sua série episodios nacionales.
neste programa, a grandes decidiu abordar outros tantos factos históricos acontecidos durante a guerra e a posguerra que ficárom ensombrados ou esquecidos polo abrumador protagonismo doutros feitos e polos corenta anos de propaganda ditatorial.

pois bem, comecei lendo inês, que ficciona o acontecemento real da invasom de la vall d'arán polo exército que os exilados republicanos organizárom em frança apos a queda do nazismo. a escritora inventa uma protagonista, inês, irmã fugida dum governador fascista e acolhida polos guerrilheiros e, en volta dela, faz aparecer, actuar e falar a uma moreia de personagens históricas que explicam, justificam ou criticam o fluir dos acontecementos: basicamente, por que os aliados nom aproveitárom a fim da ii guerra mundial para botar a franco do poder. pareceu-me imensa a construçom da personagem (sublinho: da personagem) da pasionária, tam crível, tam autêntica e tam clariescura.  

a leitura foi engaiolante como para aguardar com vontade a segunda entrega.

e lim o leitor de júlio verne, no que a grandes recria o mundo dos maquis e das guerrilhas que suportárom anos do luita nas serras e montes de toda a espanha franquista. ela centra a sua história nas serras de jaén, porém sem esquecer e estender fios a outras zonas guerrilheiras como as do norte e as galegas. o protagonista, neste caso, é o filho dum guarda civil, que vive, desde o espazo fechado do quartel, uma luita interior entre o amor ao seu pai e a amizade com um moinheiro "suspeito" de rebelde. 

a leitura foi engaiolante como para racionar a leitura e alongá-la no tempo, e, claro é, aguardar com vontade a terceira entrega.

a sensaçom que me deixárom no corpo estes dous romances é que almudena grandes chegou. deu com o estilo perfecto para contar boas histórias e deu com umas tramas acaídas a esse estilo. dos seus livros anteriores que lim, deixou-me um pouso amargo, um regosto acedo, o barroquismo adjectivador, a sensaçom de que sobravam metáforas e símis. agora nom. a sua voz nom invade o texto, nom se desparrama sem controlo polos parágrafos. tem o ponto justo de contençom que atrapa a quem a lê. sim, aprendeu, e muito, de galdós.

penso que, na actualidade, esta mulher nom está chamada a ser, é já, uma das grandes escritoras da lingua castelhana, e penso que se nom foi declarada tal, é por esse -a que acompanha á palavra escritor e por esse guerra civil que marca o tema dos seus últimos livros.

outros livros que lim de esta autora:
castillos de cartón



sábado, 29 de setembro de 2012

leituras demoradas: herdeiras pola força

xurxo ayán e manuel gago: herdeiros pola forza. patrimonio cultural, poder e sociedade na galiza do século xxi. 2.0 editora, santiago de compostela 2012.

sempre tenho presente a mesma estória: 

lá polo ano 99, a atl mistura, uma associaçom de tempo livre da que eu formava parte, foi contratada para gestionar um campo de trabalho na ilha de ons, dentro da campanha de verão da direcçom geral de juventude
lá fomos conhecer a ilha messes antes da actividade para argalhar uma programaçom bem geitosa. o campo de trabalho era de temática meio-ambiental e as tarefas a realizar polo voluntariado participante eram as indicadas polas responsáveis de meio-ambiente da ilha: limpar maleza, praias, sinalizar roteiros ou ajudar na recolhida de lixo e refugalho.

em ons demos com um  gerente muito implicado, luis era o seu nome, que nos fez uma proposta gorentosa: por que nom transformar a actividade em arqueológica e aproveitar para limpar e sinalizar o castro de ons? ele nom tinha problema em renunciar a parte da mão de obra gratuita que supunha o campo, faria-se cargo de pedir os permisos oportunos à DG de património, a terra onde assentava o castro era do estado, maquinária e ferramenta tinha o seu retém nos armazéns e o único gasto real era a asignaçom de pessoal técnico (uma arqueóloga) para dirigir a limpeza sem dano patrimonial. felizes viajamos no barco de volta pensando na actividade... 
mas nom... a direcçom geral de património negou-se categoricamente a amparar a actividade, proibindo-nos qualquer intervençom no entorno do castro. quem eramos nós para decidir que podia ser escavado e que nom?

foi assim tão grande a raiva que sentimos, que desobedecendo as ordens recebidas, durante a quinzena que nós levamos a actividade, limpamos de gestas e tojo tanto os acesso como a superfície do castro de ons. com duplo trabalho, pois nom arrancavamos nada para evitar o dano a possíveis restos.
foi emocionante descobrir os fojos ainda vivos e os perfís das muralhas exteriores e no alto, na croa, cada vez que retiravamos uma ramalhada, dar com fragmentos de cerámica.  e uma vez aberto o caminho e sinalizado, goçamos do orgulho de ver como as veraneantes subiam e perguntavam polas pegadas dos primígenos habitantes da ilha. e quando viajavamos no barco de bueu a ons ou de ons a bueu, admiravamos a silhueta do castro vísivel desde o mar por primeira vez em décadas. durante esse verão comprovamos como a cidadania respectava aquilo que lhe era accessível: nom houvo expólios nem destroços e sim interesse.

porém, nunca deixei de ter certo remorso por essa actividade, pois em múltiplas ocasions me tenho questionado sobre se tinhamos feito o correcto, se nom teriam razom os de património de que isso nom deveria ser tocado, ou sobre se era essa a actividade adequada para esse entorno.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

outono aqui

mario regueira: outono aqui. sotelo blanco ediçons, santiago 2012.

tivo sorte mário com as expectativas criadas na minha volta com o seu romance. nom me deixei levar pola eufória inicial dalgumas pessoas, que falavam maravilhas do livro e aguardei. aguardei a que alguém me digera bah, nom é tam bom como dizem!. e tem sorte também com o facto de eu ter obedecido as ordens recebidas: nom leias a contra-capa, que desvenda parte do final (senhores de soteloblanco, nom ponham os carros diante dos bois).

enfim, como lim aguardando menos do romance e sem spoilers, o resultado é que gostei muito. muito muito. 
a história é singela, que nom simples: o protagonista é chamado ao pé do irmão ausente, rico e doente. e ele acode com a intençom de ajustar contas. que contas tem que ajustar é o que imos sabendo pouco a pouco entre passeios por gante, recordos da aldeia esquecida e de velhos contos de filhos pródigos.
gostei porque reflicte bem a destruçom do mundo rural e essa vida desubicada entre a cidade e a aldeia que já nom é. porque mostra bem às claras como umas geraçons sofrem em carnes próprias as feridas infringidas/recebidas polas anteriores. e porque utiliza mui bem o recurso das músicas (admitindo eu que a metade delas me eram desconhecidas)...
o que menos: o papel de helena... semelha-me um pouco forçado o seu rancor e a sua obsessom... em excesso veemente. 

e sobretodo gostei porque encontrei nele essa mistura de boa trama e estilo cuidado que achei a menos noutras leituras recentes.há literatura -o melhor, as imagens construídas partindo das cançons-, há ideias -propostas sérias de reflexom-, há política -nom panfletos-, há pessoas -nom estereótipos-, há criatividade ao serviço duma trama bem estruturada.

e há um rio de lavar que representa o melhor e o pior das pessoas.



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

gaia e iria, iria e gaia

anxo angueira: iria. xerais, vigo 2012.
maria reimóndez: en vías de extinción. xerais, vigo 2012.


uma cousa tenhem em comum estes romances, fora a xerais como editora. 
conheço a anxo e maria. tenho em grande estima a ambas pessoas. isso faz que tenha pudor em escrever resenhas dos seus livros. é mais, decidim nom fazê-lo, porém também nom vejo porquê nom, e agora decidim que sim o vou fazer. e sei que amanhá decidirei arrepentir-me de ter-me decidido... 

sobretodo porque os dous som livros que eu lim (melhor, ruminei) em contraponto: faltou-me num aquilo que encontrei no outro. por isso os comento juntos.

iria nom é o nome duma moça, mas duma embarcaçom: o derradeiro galeom de cabotagem que navegou a vela polo mar da arouça. se conheço a angueira nom é por irmos juntos a congressos de poetas, senom por compartirmos navegaçom na ent dorna. na praia da canteira, onde passamos a tempada do verám, aguardavamos iria com grande expectaçom. 
e goçamos, goçamos reconhecer o léxico carcamám, as relingas e oitos e rises e escotas e estrovos a ressumar polas páginas do livro. encantou-nos ver recolhidas as estórias de afogados e afogadas, algumas delas escuitadas a bordo da peça de rabo ou da nova marina (maravilhoso o relato das águas do rio salgadas apos a morte de duas carrejadoras). goçamos com a homenagem á cultura marinheira que se desprende de cada linha. e lemos, e lemos e continuamos a ler... e acabou o livro e eu perguntei, já?. 

porque me faltou trama. é como se anxo gastara todas as forças em preparar-nos para um final comovente, e cansasse e desse por acabado o romance antes desse final que nunca chegou. sentim como se me fosse arrincado o livro das maos antes de o acabar.

e lim o de maria e passou-me o contrário: atrapou-me a história, enganchei na necessidade de saber qual era a grande ideia de gaia, figem por seguir os galhos e perder-me entre a ramalhada da árvore, seguim com gosto as aventuras de marinha. e lim, e lim, e continuei a ler... e acabou o livro e eu perguntei, assim? 

porque me faltou língua. achei de menos poder caminhar mais pausadamente, poder parar a remoer as estórias que o livro vai debulhando. foi como se a autora tivesse pressa por levar-nos ao desenlace e optara por obviar todas as revoltas com sombra para descansar e revisar o caminhado. achei de menos este goçar-se na narraçom por parte da narradora, sobre todo nas passagens acontecidas no monte: nas descriçons, na microtoponímia, no pormenor que faz emerger o invisível. sentim-me como empurrada a acabar a leitura já, já.

assim que tenho uma proposta para anxo e maría: juntai-vos e nascede, a meias, uma obra mestra da literatura galega.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

falando de livros

Lecturas no obligatorias.
nazaret também mercou o livro


wislawa szymborska: lecturas no obligatorias/más lecturas no obligatorias. ediçons alfabia. barcelona 2009/2012. traduçom de Manel Bellmunt Serrano.  

como nom encontrei poesia, merquei estes dous livros porque sim, por serem dela e com o risco de ficar decepcionada. 

e nom. 
a moscoscoia é deusa.
e para ela hei fazer uma estante privada na minha livraria.

estes dous livrinhos recolhem artigos em prosa que a poeta publicava numa revista de cracóvia em forma de coluna literária. eu digem para mim, que bem, vou ver de que literatura gostava esta mulher, que seguro descobro algum/a autor/a interessante. 
só que a maioria das obras resenhadas som das tradiçons eslavas e russa, das que, admito, conheço bem pouco. e como é que acabei um livro, e seguim com o outro e o acabei também? pois porque szymborska nom exerce de crítica literária, mas de leitora entusiasta. e resenha-o todo: desde o clássico greco-latino até o manual de auto-ajuda para ser feliz, passando pola guia de plantas de jardim. e em todos os casos sabe (des)animar-nos a ler com tanta retranca e tanto critério que comecei a pór-me verde de inveja porque já quigera eu escrever assim. 

o que mais invejei foi a sua aparente tranquilidade para desbotar aqueles livros que lhe parecem maus e a vontade de ler que nos dá aqueles dos que gosta. o papel é de mui boa qualidade, pode servir para empacotar presentes. e zás, acaba o artigo. 

e é certo também que aproveita boa parte dos livros para contar pequenas estórias que provavelmente som mais deliciosas que as obras resenhadas, mas como nom as lemos, nom podemos confirmar. há um artigo que começa relatando um potencial sonho do leitor: imagine vostede que sonha que desperta vivendo numa vila da idade meia... e narra todo o sonho: os encontros com a gente, os jantares, a vestimenta... para ao final afirmar se vostede sonhou isso é que nom leu o estupendo livro de fulanito que explica a vida quotidiana na idade meia, com as suas pulgas, os seus fedores e os seus caldos nojentos. tatachám!


enfim, uma deusa.



sábado, 15 de setembro de 2012

se nom queres caldo, sete cunqueiros

 merlín e familia e outras historias, editorial galaxia. vigo 1955.
as cronicas do sochantre, editorial galaxia. vigo 1956
os outros feirantes, editorial galaxia. vigo 1979.
si o vello sinbad volvese ás illas..., editorial galaxia. vigo 1961. 

sete nom forom, mais quase. a leitura foi apaixonada e devoradora. comecei com o merlim, levada pola leitura anterior de galván em saor, de dario xohán cabana. andava a buscar leituras artúricas para o meu alunado e acabei enleada nas cuncas mindonienses e reflexionando sobre os perigos das leituras obrigatórias.

lera cunqueiro em terceiro de bup ou cou, nom lembro. foi uma leitura obrigada e nom-explicada. tinhamos que ler na casa e fazer uma prova. nom percebim nada. e nom gostei. gostei assim tam pouco que cunqueiro ficou confinado ao andel dos clásicos incomprensíveis e pouco interessantes. como ademais o senhor simpatizava com as direitas e andava aos netos de vinho na festa do alvarinho, pois pior para ele perder esta leitora.  

ao ler agora merlim e família, gocei imensamente: da riqueza léxica, das múltiplas intertextualidades, do humor, especialmente do humor que ressuma em cada frasse, em cada pausa. porque podia contrastar a leitura com as leituras dos livros de cavalarias, com as lendas artúricas vividas no cinema e nos romances.

porém, o melhor foi recomeçar a leitura do si o velho sinbad... assim começa o relato: Botou as cascas de laranxa ao mar. Goteáballe o zugo polas mestas barbas. Berroulle ao rapaz que estaba facendo uns estrobos na gamela. e de súbito percebim por que nom gostara naquele afastado terceiro de bup. já na primeiro parágrafo palavras desconhecidas. se descubrim os estrovos na arouça, há nada de tempos!! se há quatro anos que diferencio uma gamela duma dorna! e seguim a ler e a rir porque cruzava este sinbad com o das mil e uma noites que, sim, agora tenho lidas e relidas. 

quanto dano fazemos ás vezes nas nossas aulas! como podemos dar a ler uma obra sem contextualizá-la, sem acompanhar a leitura, sem subministrar as chaves de interpretaçom... certo é que a minha experiencia destrutora do grande cunqueiro vém de há vinte anos, mas as práticas em muitas aulas de literatura nom tenhem mudado muito com a mudança de século. 
penso que, a dia de hoje, é preferível ler um só capítulo, um só poema, um só trecho de qualquer obra, acompanhando ao alunado na leitura, que abandoná-lo num território sem mapas nem guias.

a mim dérom-me caldo e nom gostei. mas soubem recuperar os sabores e eu, que nom quigem cunqueiros, tomei sete cuncas. quantas companheiras de classe nom tiverom a mesma sorte?

renascença

Education

meu pobre comopamdaboca, que leva messes no mais absoluto abandono! o tempo levou-me por outras enormes margens, que nom coutárom a leitura, mas sim o registo escrito da mesma. 

tenciono seguir...

...e continuo.

A imagem leva por título education. É de thiane e tirei-na de aqui.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

o dia de amanhá

ignacio martínez de pisón: el día de mañana. seix barral. barcelona 2011.

duas recomendaçons, mas as duas tam entusiastas que acabei por encarregá-lo, mercá-lo e lê-lo. aos poucos, dosificando. levou-me três dias porque me neguei rotundamente a devorá-lo numha tarde.

e comparto.

penso que é um livro boíssimo. onde nom sobram palavras. onde nom sintes a falta de nengumha. onde cada intervençom tem sentido: ajuda a ver a imagem do puzzle e faltando ficaria um oco descuberto na mesa.

gostei da singeleza do estilo, da combinaçom de vozes (homens, mulheres, vítimas, cúmplices, ricos, pobres, burgueses, currantes...) e a ausência, total, da voz do protagonista. porque é um livro com um claro protagonista, justo, ao que nunca, nunca, podemos escuitar directamente. 

essa é, para mim, a fortaleza do romance. o fácil seria colocar ao mau dando o discurso explicativo-justificativo, tipo eu nom sou mau, o que passa é..., ou bem hahahahahaha, olha que mau que fum!. martínez de pisón nom faz nem umha cousa nem outra. coloca um prota que nunca se defende nem se justifica nem se explica nem pressume nem objecta. nada. e faz-no de umha maneira magistral.

todas as testemunhas que falam de justo tenhem ademais a sua própria história. e este é outro dos acertos da obra, claramente estrutrada: cada testemunha introduze a sua vida antes de explicar a sua relaçom com justo, e essas introduçons som novas tesselas que ajudam a construir o mosaico da vida na barcelona franquista dos anos 60 e 70.
enfim, leitura mui mui recomendável.




segunda-feira, 22 de agosto de 2011

ares bem difíceis

almudena grandes: los aires difíciles. tusquets. barcelona 2002.

para mim resultou, sobretodo, um livro tristíssimo sobre pessoas tristíssimas. e nom um triste livro, que é diferente. 
dúas pessoas decidem refazer as suas respectivas vidas mudando-se a umha nova urbanizaçom a pé das praias gaditanas. ela, sara, foge sozinha, ele, juan, fai-no acompanhado da súa sobrinha orfã e do seu irmão retrassado. a mulher que faz a limpeza em ambas as casas exerce de canle comunicante entre elas. 
e vamos lendo e descobrindo que todas as pessoas que habitam os dous chalés resultam seres solitários e abandonados na vida. seres que escondem segredos, medos e angústias que cada amanhá tencionam simular sob a máscara da normalidade. 

a base da narraçom está nas analepses que rebordam cada capítulo. em cada um deles assume a perspectiva da narraçom umha das personagens que vai trazendo ao presente memórias dos momentos que marcárom a sua vida e forçárom a sua chegada a esse recanto do sul. 
e seguimos lendo e seguimos conhecendo os interiores desolados dumhas pessoas para as que, o difícil, nom é resistir a lestada ou o vento de poente, mas a dor de respirar o ar cada três segundos. 

duas únicas pexas: ao começo faziam-se-me pesadas e repetitivas as contínuas metáforas e comparaçons com que a narradora acompanhava os comentários sobre a situaçom anímica das personagens. com o avanço da leitura afigem-me, e até me parecérom necessárias.
e o final, para mim contraditório com a imagem que se constrói previamente de sara, a protagonista. a sara que imos conhecendo, ou que eu creio conhecer após a leitura, nom deixaria entrar ao polícia tam alegremente na sua casa, e menos o deixaria só com afonso conscientemente. deveria ter acontecido doutra maneira. 

em todo o caso, penso que esta mulher é umha grande, nunca melhor dito, escritora.

o jardim esquecido

kate morton: el jardín olvidado. suma de letras. madrid 2010.

nom sabia que era um best-seller. soube-no depois de lido. é bom deconhecer estas cousas, porque eu sou umha leitora fundamente prejuiçosa.  

do livro gostei. a trama engancha. há três épocas, três protagonistas mulheres, e um conflito comum. a mais nova de todas elas, a da época actual, busca dar soluçom a um segredo familiar, que nós imos conhecendo da mão das suas pesquisas e das outras narraçons cruzadas com a principal. 

o livro está bem construído. dá as suficientes falsas pistas para manter a atençom do leitor, mantém a intriga, e penso que as contextualizaçons ambientais (essas ribeiras londrinas, que recordam as crianças de dickens, as mansions vitorianas da austen) estám bem logradas. bebe de múltiplas fontes, surpreedentemente pouco australianas, para dar com um cóctel que seduze e atrapa. 

sobrar sobrárom-me os contos de fadas: demasiado artificiosos.

também é certo que nom lhe pedim mais...



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

leituras demoradas: de cóleras e chocolates

gabriel garcía márquez: el amor en los tiempos del cólera. mondadori. barcelona 1999.
laura esquivel: como agua para chocolate. debolsillo. barcelona 2003.

o tempo nom deixou de passar por estas duas obras. forom escolhidas para ler no clube de leitura de papás e mamás do licéu. já tinha lido as duas há umha cheia de anos. a de garcía márquez guardava na memória o primeiro posto em preferências (descontado os cem anos, que som antológicos). da de esquivel guardava mais memória das imagens do filme, visionado no cinema yago de compostela que da narrativa, mas a memória era positiva e carinhosa. 
porém o tempo passou, a vida por mim e polos dous livros e a leitura já nom foi a mesma. odeio florentino ariza. nom sei como puidem gostar de semelhante machistada senimental. essa ideia de que podes ter um amor eterno, a um tempo folhar com quanta mulher se ponha diante, e ter a desfachatez de afirmar que te mantés virgem para a amada porque as outras nom tenhem valor. o que mais raiva me dá é pensar que na primeira leitura nom prestei atençom a isto, mas todo o contrário, ficou em mim a ideia de que o amor era isto que reflectia o romance. a posiçom do narrador tem a suficiente ambiguidade como para que a discusom no clube fosse se essa era a educaçom sentimental que defendia garcía márquez ou realmente ele quis denunciar esse concepto do amor e das relaçons entre homens e mulheres. como admiro garcía márquez, opto por defender o segundo.

o mesmo me aconteceu com o livro da esquivel. se isso é o amor, mamaínha!
e outra cousa encontrei em comum entre as duas obras: demasiados adjectivos. descubrim que agora mesmo prefiro os estilos menos barroquizantes. a singeleza narrativa é mais do meu gosto. e em ambas a obras tivem a sensaçom de adentrar-me numha selva rebordante de cheiros, aromas, cores e tactos, para mim de mais. vam-me mais os prados e as veigas. sem excessiva vegetaçom.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

náufrago do paraíso

marcos calveiro: lois pereiro.náufrago do paraíso. xerais. vigo 2011.

dentro da vorágine de livros adicados ao autor das letrasgalegas de cada ano, caeu-me este nas mãos em forma de presente. é um desses livros de encarga, suponho, pois está editado na colecçom fóra de xogo, dirigida a público juvenil. é dizer, um livro feito para licéus de secundária, basicamente.
entrei na leitura sem muitas expectativas, sem aguardar nada, mais bem com o morbo de ver como defrontava o autor dumha maneira politicamente correcta, a tam pouco politicamente correcta mocidade, luita e morte de lois pereiro. 
e chegou a surpresa. o primeiro lance deixou-me k.o. umha conversa entre duas velhas num cemitério.  impressons ante o epitáfio de lois. essa frasse nom era para pór aqui... boíssimo!
com muito acerto, penso, o autor coloca-nos ante umha biografia dramatizada (apresentam-na na contra-capa, como guiom cinematográfico, mas em realidade cumpre com todas as normas do teatro). pequenas cenas que recolhem momentos concretos, anedotas ao longo da vida de lois pereiro que conseguem, penso, que quem lê se faga umha imagem poliédrica do poeta. para mim, o único que fica curto é precisamente, a antologia poética.

umha encarga bem cumprida, sim senhor.

leituras demoradas: ayes deste meu país

j.l. do pico orjais e isabel rei sanmartim: ayes de mi país. o cancioneiro de marcial valladares. dos acordes. baiona 2010.

nom sei música. nada de nada. nem sei solfejar e seique nem tenho ouvido (diz meu pai), ainda que me esforce em aprender toques e cantos de pandeireta. e por que merquei este livro (e lim, claro), se é de música? umha, porque umha das autoras é isabel, amigha guitarrista que apreço muito; duas, porque o outro autor nom o conheço persoalmente, porém sigo atentamente as suas andanças através da internete. e três, porque estudam parte da obra de um senhor (reitegrata fundacional) que também admiro, o valladares. triplo compromiso, portanto.

ayes de mi país consiste numha ediçom fac-simile do cancioneiro popular que marcial valladares tinha recompilado meado o século xix. o interesse deste cancioneiro está no feito de conservar letras e partituras musicais. para mim, como já digem, ignorante na arte de solfejar e diferenciar graves e agudos, fusas e semi-fusas, podia ter o interesse das coplas e letras recolhidas. era-me avundo.

mas entrei na introduçom. os autores tencionam explicar-nos o contexto social e cultural em que este cancioneiro tem nascido. tencionam e conseguem, porque a sua achega resulta do mais interessante. 
na zona da estrada sempre houvo umha funda tradiçom musical popular, som várias (e fôrom mais) as bandas de música e muitos mais os grupos de música tradicional, os coros e ruadas, etc. e saber que numha casa labrega rica, como a de marcial valladares, havia tanta variedade de instrumentos, tanto gosto pola música, ajuda a comprender essa tradiçom. 
as cousas cobram o seu sentido quanto mais conheces. e é muito importante focar a atençom nesses trabalhos aparentemente marginais (centrados como estamos muitas vezes no labor literário ou historiográfico de certas figuras) para ter umha visom mais completa do que foi a posta em valor da cultura galega no xix. 

enfim, que eu saquei proveito do livro sem saber de música. imaginai aquelas que tenhades mais cultura musical ca mim...