quarta-feira, 20 de abril de 2011

leituras demoradas: sostém pereira

antonio tabucchi: sostiene pereira. anagrama: barcelona 1994.

em que mundo vives, pereira?

já lera este romance de tabucchi. é umha leitura antiga, tanto que nem a lembrava. lim-na ao voltar de lisboa, onde vivim uns messes, e sei que fixei na minha memória os lugares onde o livro acontecia, porque por eles também acontecera eu. de argumentos, personagens, acçons, nada recordava. nada. 
retomei o livro por ser proposta do novo clú de leitura no que enredei. e enredei em pereira e no seu conflito. e desta vez deu-me igual se a história acontecia em lisboa, ou em berlim ou em compostela. quantos pereiras nom terá havido nestes mundos de guerras e ditaduras, de injustiças?
como o livro é de sobras conhecido, só vou apontar que me pareceu essa diferência entre umha leitura e outra: da primeira só olhava lisboa, as sua ruas, o acerto na descreçom desse agosto que a mim tanto me custou suportar, como com essas limonadas e esse ventiladores consegue o tabucchi fazer-nos sentir a suor peganhenta. 
e agora só pensava no motor do livro, nessa questom proposta: devemos tomar partido? e desta vez também me serviu a mim para decidir implicar-me. nom sei se isso e bom ou mau, mas a responsabilidade é toda de pereira e a tenrura que transmite. 

leituras demoradas: desejo de ser punk.

belén gopegui: deseo de ser punk. anagrama. barcelona 2009.

é este o primeiro livro que leio com protagonista adolescente mas que nom é pensado para adolescentes. e claro, por isso mesmo, é a primeira protagonista adolescente em que acredito, que semelha pessoa autêntica e nom protótipo tópico com história típica. 

quase nom há cenas situada no licéu de secundária (viva!); quase nom há declaraçons de amor nem roubo de noivos e traiçons à super-melhor-amiga (viva! viva!).

só por isso o romance paga a pena. 

mas é que ainda por cima conta umha história de adolescente desorientada que devém em mulher desorientada, em filha desorientada, em ocidental desorientada, em burguesa desorientada, enfim, em pessoa que pom em questom o seu lugar no mundo dumha maneira crível. 

coloca questons sobre a mesa para fazer-nos pensar, como adoita e gosta de fazer belén gopequi, mas, quiçás por colocá-las desde a perspectiva dumha mocinha rebeldesemcausa, essas questom aparecem menos artificiais e forçadas que em outras obras e mais assumíveis como própias por mim, leitora. 

gostei muito.

outros livros que tenho lido de gopegui: 

terça-feira, 22 de março de 2011

atalanta

gianni rodari: atalanta. la galera. barcelona 1995.

gianni rodari é um velho conhecido, pois a sua gramática da fantasia e livro-bíblia e os seus contos por telefone umha das leitura que recordo já da escola.
e nessas procuras de um livro adequado para o meu alunado, querendo trabalhar mitologia com eles, soubem que versionara a história de atalanta, a mocinha despreçada polo pai por ser mulher. e provei a ler. 
primeiro houvo que conseguir o livro. nada fácil. seique era umha ediçom antiga (do ano 95 antiga, enfim!), mas acabou por chegar.
gianni rodari aplica á história de atalanta a técnica do incrementum: recria os diálogos que puiderom ter tido as donzelas, os soldados, os homens que a ela se defrontárom. aplica-lhe a digressio,levando-nos por outras histórias mitológicas com um simples ainda che há passar como a... e zás, solta a aventura de...
gostei da história de atalanta porque é um bom contrapunto á apologia da virilidade e a violência e o amor submisso que tem grande parte da literatura canônica. atalanta avança na vida observando o resto de seres humanos, homens e mulheres, e decidindo como (nom) quer ser.
até encontrar o seu espaço no mundo. 

um livro delicioso.

de amor e dor

anne sexton: poemas de amor. linteo poesia. madrid 2009.

tinha vontade de botar-lhe o dente a esta poeta, depois de saber dela há anos, através da carapuchinha encarnada (para que vejades de onde venhem as ligaçons leitoras). mas o livrinho que procurava nom o há em língua acessível para mim (tradutoras, traducide!). em troca dei com esta antologia de poemas de amor. 
custou ler. porque nom tinha o corpo para esta poesia de amor. dura. quase violenta. auto-ferinte. umha grande parte dos textos transmitem umha ideia das relações de parelha destrutiva com a que me resulta difícil sentir-me identificada. 
e deixava para outro dia.
e venha a começar de novo. 
e anotava um verso.
umha imagem.
e as transformava para as fazer minhas. 
e acabei por identificar-me com aquilo que escrevim eu lendo anne sexton. 

suponho que isso também é a leitura.

derradeiro encontro

sándor márai: el último encuentro. salamandra. barcelona 2010.

um livro de ritmo lento que atrapa como um filme de acçom. quando menos a mim. nunca pensei que umha narrativa tam vagarosa, tam amarrada às descrições me teria amarrada a mim à leitura. 
um velhote recebe o aviso de visita de um velho amigo. um amigo que nom vê há quarenta e um anos, exactamente. o velhote, um nobre general retirado, ordena preparar o recebimento do amigo pródigo e preparar a mesma ceia de há quarenta e um anos, exactamente. mas esta será a derradeira. há contas que ajustar. 

e assim, entretém-se aguardando polo convidado, rememorando o tempo em que se conheceram e intimaram; e chega o amigo e sentam a cear e recordam todos e cada um dos pormenores da sua amizade; e fam a sobremesa e seguem a ajustar contas com o passado, cena a cena, e nom podes parar de ler porque há um segredo que paira polas estâncias e que queres saber e nom dá chegado. 
passam as páginas e conheces todo sobre o valor da amizade, da confiança, da fidelidade mas o segredo, quem sabe!

leitura agradável.

sábado, 29 de janeiro de 2011

leituras demoradas: as vozes do deserto

marlo morgan: las voces del desierto. zeta bolsillo. barcelona 2009.

charo recomendou-me (e regalou-me) este livro para aquela constelaçom sobre ilhas. nom fala dumha ilha autêntica, mas dumha metafórica: o deserto australiano.

o livro é a crónica dumha viagem inesperada ao duro outback. marlo morgan acompanha umha tribo aborigem, provavelmente das que ficam incontaminadas polo progresso numha peregrinaçom através do deserto australiano. nessa viagem tem acesso aos conhecimentos, a concepçom do universo e da vida, á filosofia e a relaçom com a natureza dessa gente. umha gente impressionante, claro.

as vozes do deserto som as vozes dos aborigens, que elegem umha médica americana como portavoz perante o mundo ocidental, tecnológico. ela é a narradora desta história que nos faz chegar como testemunho dumha experiência transformadora por iniciática.

muitas das experiências narradas tenhem esse tom metafísico-patafísico dos gurus alternativos, mas ao mesmo tempo desejas que todo o narrado tenha acontecido na realidade porque desejas poder acreditar que esses aborigens som tam sábios e tenhem tam claras as cousas. em realidade, aquilo que narra esta mulher é umha utopia perdida num deserto, algo semelhante ao que narra, noutro sentido, o tuaregue de vázquez figueroa.

contra o vento

ángeles caso: contra el viento. editorial planeta. barcelona 2010.

nom estám na minha listagem anual de leituras os prémios planeta. mais bem é ao contrário. podem-me os prejuíços e tenho por costume nom atender-lhe.

mas caiu nas minhas mãos este contra el viento, porque fala também da áfrica, fala de mulher(es) em luita, fala de lisboa e fala de cabo verde. e dei em lê-lo. e contra os meus próprios prejuíços, gostei, ainda que a autora o tinha fácil depois da decepçom anterior.

o que mais agradecim foi a perspectiva da narradora. eu contava com umha história lineal, contada pola pseudo-autora-protagonista e centrada na personagem de são. mas resultou que para chegar a são 8que é a prota) antes tivem que conhecer a todas as mulheres que en volta de são andaram, saber das suas histórias anônimas, através dumha contadora de contos mui achegada aos narradores de tradiçom oral.

quero suponher que a autora faz aqui umha homenagem a essa capacidade contadora de quem lhe fez chegar a história. suponho. e isso conseguiu-no.

tam-pouco tem muito mais o livro. quero dizer que se lê bem, tem umha trama que atrapa, e dá para entreter algumhas tardes de chuva e frio, como estas que temos.