segunda-feira, 29 de junho de 2009

droga no cola-cao

stieg larsson: los hombres que no amaban a las mujeres. ediciones destino. barcelona 2008.

foi proposto este livro para a última sessão do clube de leitura. lim-no em duas tardes. e tenho clara a sua definição: um chute de heroína. não podes evitar seguir lendo, ainda sendo sabedora de que o livro não che oferece nada especial. é drogha no cola-cao que procura despistar-te para che roubar o tempo. e ti deixas-te, porque o prazer que che vende é imediato.

e não tenho muito mais que dizer...

baleia em ferro

alfredo ferreiro: metal central. espiral maior. a corunha 2009.

...o paraíso / pesado e puro / da vida mineral.

há uma imagem da que gosto muito para representar o abandono, a ruína: a do esquelete de um barco varado numa praia, as costelas exibindo ao mundo a ausência de corpo, carne, alma. e essa imagem leva-me sempre a um conto, penso que de dieste, no que fala do seu encontro com umha baleia agonizante na praia e o cheiro a saim entrando-lhe polas ventas.
e não sei por que, mas são essas duas imagens as que me vinhérom à mente trás a leitura de metal central. essas e as da panificadora de vigo e a das conserveiras abandonadas aqui nas costas arousás...
porque todas as fábricas são um esquelete de costelas formigão, carne tijolo, pele de cal. porque todas elas são dragões a devorar currantes en oferenda, virgens com macaco e luvas que estragam o seu tempo em uma cerimónia de sacrifício. todo pola família, a hipoteca, a dignidade.
em metal central apresenta-se uma frágua como um ser vivo, necessitado de alimento, uma baleia cujo sangue é metal ardente e liquado e cujo alento pode ser sentido se uma escuita atentamente. sangue que nós alimentamos e que nos alimenta.
porque todas as fábricas são uma meiga chuchona que decanta metais, dá lei ao ferro, aquilata ouros com a energia humana que absorve. como bom vampiro a fábrica vive na noite e renasce sempre entre lume e calor, argêntea ave fénix. amores, espírito, ânimo, humus humano transformado em newtons contabilizáveis.
de todo isto fala metal central. de todo isto fala, nunca melhor dito, o ferreiro.



quarta-feira, 24 de junho de 2009

para comprendermos GB...

carlo m. cipolla: as leis fundamentais da estupidez humana. tradução de moisés barcia. rinoceronte editora. cangas 2009.

sempre e inevitavelmente cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos que há em circulação

era eu conhecedora da terceira lei fundamental da estupidez humana: uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa dano a outra pessoa ou grupo de pessoas sem obter ao mesmo tempo um benefício para si, ou mesmo obtendo uma perda. conhecia-a pola minha companheira carmen, e temo-la aplicado nas nossas titorias da escola para fazer ver ao nosso alunado a tontura de certos comportamentos.
mas não lera a fundamentação teórica de tal lei: a mim funcionava-me e ponto.

já tenho comentado por aqui que gosto muito da política tradutor/editora da rinoceronte. traz ao galego autores e obras interessantes, novidosas e muitas vezes desconhecidas, em trabalhos de cuidada tradução. e penso que a edição deste opúsculo (em realidade fragmento de um livro mais amplo: allegro ma non tropo) é intencionadamente destinada a esclarecer-nos feitos acontecidos na nossa sociedade nos últimos tempos.

pode que haja quem esté ainda a dar-lhe voltas aos resultados das últimas eleições na galiza, ou quem ande a flipar com as mais recentes acções de (des)governo do senhor feijoo, ou quem nom lhe acabe de ver explicação alguma a entidades como galicia bilingue...
pois bem: o senhor cipolla, já no ano 1988 predizeu e explicou todos estes fenômenos desde um ponto de vista científico.

só uma amostra: cumpre lembrar que, de acordo com a segunda lei, a fracção e de pessoas que votam são estúpidas, e as eleições são uma magnífica ocasião para causar prejuízos a todas as demais, sem obter nengum ganho na sua acção. estas pessoas cumprem o seu objectivo, contribuindo ao mantemento do nivel e de estúpidos entre as pessoas que estão no poder.

eu lim, rim, entendim.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

o médico dos piratas

carmen boullosa: el médico de los piratas. siruela. madrid 2002.

eles fôrom os legítimos donos do caribe


esta é uma das compras da feira do livro compostelana. compra baseada unicamente no título. o tema da pirataria há tempos que chama a minha atençom, pois tem muito a ver com esses temas de marginalidades e lugares outros que trabalho (trabalhei, trabalharei seriam tempos verbais mais acaidos) para o doutoramento.
o médico dos piratas é uma novela, ou um conto longo. nela, o escravo smecks narra como chegou ao caribe, como foi escravizado, como aprendeu a arte de remediar com dous dos seus amos e como acabou por unir-se à Grande Confraria dos Irmãos da Costa, sociedade de piratas que recorria as ilhas caribes a practicar a pilhagem.

lendo esta novelinha, aprendemos muito: comprendemos as origens da actividade pirata, as suas leis e as suas normas; sabemos como era a vida nos tempos em que o centro do mundo estava em todas essas ínsulas recém descobertas, recém expoliadas; aprendemos a diferenciar entre corsários, bucaneiros e piratas; é-nos mostrada como é a vida en escravatura e as tensões entre os diferentes grupos que luitavam polo domínio das terras americanas... todo isso e mais em um texto mui breve.

mas para mim, é isso mesmo o que faz que a história perda alento. é tam grandemente pedagógica, sume-se tanto na didáctica, na explicação, que nom acabamos de entrar na trama, nem de identificar-nos com as personagens. e penso que havia trama para alargá-la mais, para fazê-la passar de novela a romance: a sensação que ficou em mim foi a de ter lido um extracto de um texto muito mais amplo.

um exemplo é a narração da morte do pirata l'olonnais: esta produze-se da mesma maneira que ele leva sonhando dias, pesadelo trás pesadelo. é caçado polos índios dariém que o mutilam e torturam entanto ele descreve todas as tropelias que lhe vão fazendo, pois são as mesmas que tinha sonhado... esta história, impressioante, selvagem e tão fermosamente contada que devera titular a obra, merecia muito mais espaço narrativo, uma maior centralidade.

é dizer: fiquei com fame de mais aventuras piratonas...

seique a mesma autora tem outro romance pirateiro protagonizado por smecks: hei de provar a ver se me enche!



segunda-feira, 25 de maio de 2009

o (re)pouso das palavras


o falar não tem cancelas. e quantas vezes me tenho arrepentido de cousas que digem. e pensado fora de tempo esse "e por que não calarás!" e quem sabe quantas vezes mais me arrependerei no futuro...
mas de tempos em tempos aquilo que umha diz, sem meditá-lo muito, e sem pensar que haja por aí quem escuite, traz presentes inesperados e por isso muito mais adoçosos e deliciados.
e para quem pense que a internete desumaniza esta doida humanidade, que roia a inveja de sentir o afastado cheirinho dessas madalenas recém feitas que hoje viajárom da crunha à arousa só por umas palavras que encontrárom repouso neste blogue.

obrigada, dores.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

construções

eduardo estévez: construcións. edicións positivas. compostela 2008.

merquei uma parelha / de canários
para fazer menos desolada / a ordem da casa.


quando eduardo estévez botou a andar o seu projecto enconstrución levei um susto de morte. eu andava a voltas com as minhas (de)construções e dei com um escritor que podia estar a fazer o mesmo que mim. nunca entrei, portanto, no seu blogue, para não ter a tentação de lhe roubar ideias e para não levar o desgosto de ele estar a trabalhar (publicamente e só por isso, primeiro) as mesmas ideias que mim.
e ainda houvo outro susto, porque quando des-levou o prémio por ter pré-colocado poemas do livro num blogue, eu já tinha enviado o meu a um certame, e também havia o assunto esse de que tinha os poemas aí na caixa do lado.
superados estes medos e sustos, decidim entrar nas construcións do edu (com estes antecedentes já há confiança) e ver se escrevemos o mesmo sob o (quase)mesmo título mas desde distintas escrivainhas.

pensei que sim no primeiro poema, mas não. eduardo estévez escreve sobre a outra face das construções, é dizer, sobre as pessoas que as habitam. escreve sobre a cidade pendurada, sobre os prédios calcando os corpos das pessoninhas que querem viver neles, das gentes que querem construir pontes que ficam, quase sempre, em rascunho.

há um subgênero literário muito em boga: a história alternativa ou ucronia. consiste em imaginar e contar como seria o mundo se algúm feito importante tiver acontecido doutra maneira: e se franco tivesse perdido a guerra, e se colombo tivesse naufragado nas canárias... pois justo o contrário são estas construções: a história daquelas pessoas que renunciam à possibilidade de mudar as suas vidas, de construir, as que ficam cá, na realidade, no dia a dia do café o trabalho o super o bus a monotonia entanto alguem, noutro lugar, é quem de dar o passo e tentar a utopia. ou quando menos imaginá-la.
e do que se trata é de construir relações, comunicação, pontes através de palavras. mas a maioria das pessoas protagonistas dos poemas não conseguem. roçam levemente a possibilidade da ucronia, da alternativa: dizer-lhe algo, sentar ao carão, cruzar a olhada... mas não chegam a mexer-se. o estatismo é a sua resposta. o voyeurismo, o seu consolo.
os dous canários do início são o eu de todos os poemas: sem identidade, sós, com nada no rosto, mortos de tristura, incapazes de espantar a desolação, engaiolados numa vida urbana e quotidiana que os mantém numha borbulha de soidade e incomunicação. e para intensificar tal soidade, a ausência do eu poético, do enunciante em primeira pessoa. não, melhor uma terceira, despersonalizada, ausente, distante, irónicamente narrativa e demiúrgica. tal é a soidade tal a desolação, que as personagens continuam, indiferentes, a rotina do queijo e o coitelo porque são sabedoras que ninguém falará delas enquanto morram.

e passaram os anos

um dia escuitou
na rádio uma canção
que a levou de regresso
à infância

era um velho
blues mas lembrou-lhe
a imagem da mãe
e a casa da aldeia

detrás vinhêrom
outras

por primeira vez
desde a partida decatou-se
de que não voltara pensar
em tudo isso com
carinho


mudou de emissora


um camiom detinha-se
diante do bar.

colocando o ramo: o autor a falar da obra:



quarta-feira, 6 de maio de 2009

o pouso que nos precede

dores tembrás: o pouso do fume. espiral maior. a corunha 2009.

desde então / o coração / coma o marmelo / balorecido.

nom sabia de dores tembrás. mas resulta que temos uma amiga comum e falou-me dela. e o outro dia vim o seu livro e merquei-no. e hoje colhim-no do lote dos não-lidos (o lote cresce a cada dia e exponencialmente, bem vedes que leio pouco nestes tempos de abúlia primaveral); enfim, colhim-no por botar-lhe um olho e enredei como em silveira invasora.
porque este é o livro de antes do meu, o pouso que permite que eu escreva o que escrevo. é o livro de quem tem um passado, de quem relembra a neinice para poder deixá-la atrás e construir um futuro.
nunca acreditei em gerações ou quando menos em pertencer a algumha. mas quando leio textos como o do pouso acredito um pouco, um pouquichinho, porque vejo que há toda umha geração, amplo conceito, que está a ser a testemunha da morte, do funeral, do enterramento de todo um sistema cultural e que exerce disso, de testemunha da apocalipse: porque se carlos negro faz o requiem em cultivos transgênicos do rural e os seus valores, ubi sunt, neste pouso de fume, dores resgata a sua infancia para lhe celebrar um cerimonial de despedida.
mas a morte vai parelha à vida, são as duas face e envés da mesma moeda. só do soterrado, do estercado, nasce rebento de nova vida: e esse pouso de lareira afumada é o basamento em que pode fazer firme esta geração para não se sentir perdida:

pequena orfa
afeita à friagem
ortiga-me
cubre-me de cinsa
que saberei corresponder-te.

surpreendeu-me encontrar motivos comuns entre o que escreveu dores e aquilo que tenho escrito (a casa velha, a couça, as estrugas, os sinais dos antergos) e também com aquilo que ando a escrever (a costura, as lavandeiras, o sino das mulheres). e como petisco dum livro mui recomendável, um fragmento que bem poderia ser para o meu avó:

na casa natal
água e couça

acompanhavam a tarefa
de debulhar as horas
a ritmo de gharlopa
as falcas

deixavam-se fazer.